Não restam dúvidas de que Porto Velho teve sua origem, principalmente, devido a construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré a Madeira-Mamoré Railway Co. Ltda.
Desde meados do século XIX que se cogitava a possibilidade de superar os obstáculos naturais que separavam Brasil e Bolívia. Se isto implicava a construção de um canal ou de uma ferrovia, não importava para os governantes dos dois países e pelos norte-americanos que já visavam o potencial econômico da região.
A construção da Madeira Mamoré é rondada de inúmeros atropelos. No ano de 1867 Dom Pedro II designa para a região do Madeira engenheiros alemães, cujo principal objetivo era o estudo topográfico da região. Em 1871, o coronel da reserva norte-americana George E. Church criou a Madeira-Mamoré Railway Co. Ltda. que por sua vez contratou a empreiteira Public Works, não conseguindo sucesso devido às intempéries climáticas e ambientais, abandonaram a obra em 1872. A empreiteira Dorsay e Caldwel assumiu mas desistiu em pouco tempo, repassando o contrato à empresa Reed Bros. & Co. que não logrou êxito algum. Em 1877 a empreiteira P & T Collins assumiu a obra faraônica do general Church, mas 2 anos se passaram e a empresa só conseguiu assentar 7 Km de trilhos abandonando a empreitada em 1789. Já no século XX em 1907 o governo republicano se vê obrigado a dar continuidade a obra da ferrovia devido a acordo firmado com a Bolívia no Tratado de Petropólis de 1903. É neste momento que o engenheiro Percival Farquhar assume a construção daquilo que ficaria conhecido como a Epopéia Amazônica. Em 1907 a empreiteira May & Jekill, que depois viria a ser May, Jekill & Randolph reinicia a construção e concluí-a em 1912.
Por uma ironia, no ano em que a Estrada de Ferro Madeira Mamoré é dada por concluída, o ciclo da borracha que era o que havia lhe dado impulso na construção, já entrava em decadência.
No entanto, apenas 2 anos se passaram para que o município de Porto Velho fosse criado. A lei de criação foi a n.º 757 desmembrando-o do município de Humaitá.
Criado em 1914 o município de Porto Velho, teve suas origens próximas as instalações da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, aliás, basicamente toda a administração do município que ora nascia estava sob incumbência dos administradores da ferrovia.
Em 1913 foi criada a Vila de Porto Velho o que viria a ser posteriormente o município com o mesmo nome.
Quem assina o decreto de instalação é o então governador do Amazonas Sr. Jônathas Pedrosa no dia 24 de janeiro de 1915.
O superintendente designado para o município foi o Major do Exército Fernando Guapindaia de Souza Brejense. O cargo de superintendente é o equivalente dos atuais prefeitos, que durou até meados da década de 1930.
Guapindaia teve seu mandato de 1915 a 1916. Seu governo foi marcado por uma série de discussões com os administradores da ferrovia, todavia, houveram realizações de grande relevância.
Em relação à ferrovia, seu principal norte de discussão foram as incongruências fiscais, pois a E.F.M.M. gozava de isenção de impostos e era detentora de grandes lotes de terra. Suas principais realizações foram: construção da capela dos inocentes e o mercado municipal que só foi concluído em 1950.
Ao mesmo tempo em que Porto Velho surgia, a Vila de Santo Antônio foi sendo esquecida e consequentemente perdendo sua importância, principalmente em relação a Estrada de Ferro. Sua arquitetura foi “ocultada” aos poucos de forma bem gradativa, hoje basicamente o que resta da vila de Santo Antônio são pequenos marcos, estando mais visível a capela do padroeiro que deu origem ao nome da Vila.
Devido a estreita relação com os ingleses e norte-americanos que vieram construir a Madeira-Mamoré, Porto Velho guardou uma série de características destes povos, principalmente sua arquitetura.
O bairro Caiari, o primeiro de Porto Velho a conter infra-estrutura adequada, com planejamento e saneamento básico guarda influências fortíssimas deste contato dos ingleses e americanos nesta paragens amazônicas.
A influência estrangeira, no entanto, possibilitou a chegada de alguns traços de modernidade, como a energia elétrica, uma máquina de fazer gelo, uma de biscoito, hospitais, escolas, etc.
A construção de algumas dessas instalações talvez tenha possibilitado o aceleramento da chegada de mais pessoas, algumas ainda animadas pela idéia de ficarem ricas com a exploração do látex. Mas que fique bem claro que no caso das escolas, o seu objetivo principal era atender aos filhos dos administrados e operários ingleses e americanos da E.F.M.M.
Mesmo gozando de invejável posição geográfica em relação ao rio Madeira, o potencial hidrográfico de Porto velho jamais foi explorado como poderia ter sido.
José Felinto Ferreira Neto
Professor